quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Máquina de Camisinha

Uma questão de saúde pública ou comportamento?

A reportagem exibida no último domingo pelo Fantástico trouxe à tona a polêmica gerada pelas “máquinas de camisinha” disponibilizadas em escolas públicas. Segundo a doutora em antropologia Micheline de Oliveira, em entrevista ao programa, jovens entre 13 e 19 anos possuem vida sexualmente ativa. O que demandaria a urgência em programas de prevenção de DST/AIDS. Segundo o ministério da saúde, autor da iniciativa, serão 40 as máquinas oferecidas até o fim de 2010.
Aqueles que são contra a iniciativa argumentam que a escola não é ambiente para a máquina. Lembram que os postos de saúde já oferecem camisinhas de forma gratuita. Já a opinião de jovens e adolescentes ouvidos pelo Fantástico se mostra dividida.

Programas de conscientização e prevenção a DSTs não são novidade. A pergunta que persiste sem uma resposta simples é: Porque estes programas não conseguem gerar efeitos entre os jovens desta faixa etária? Hoje, doenças de outros séculos como a sífilis e gonorréia crescem assustadoramente. Segundo a OMS (2009) são cerca de 12 milhões de casos por ano no mundo, destes, mais de 3 milhões na América Latina. Segundo o MS, só em 2009 foram registrados cerca de 6 mil casos de sífilis congênita no Brasil, um número crescente entre meninas que engravidam antes dos 14 anos de idade.

Para muitos, a “máquina de camisinhas” pode incentivar o diálogo familiar sobre sexo, no entanto, a tônica deste século tem sido a dificuldade de muitos em transformar informação em reflexão, ou seja, pode-se informar sem que isso signifique algo para quem a recebe. Sem a reflexão necessária a informação não se transformará em comportamento. Outra característica deste tempo é o comprometimento de jovens, entre 18 a 24 anos, com a diversão. Para muitos deles assuntos considerados não divertidos podem ser colocados de lado.

Será que as escolas públicas do Rio de Janeiro, cuja avaliação do IDEB é uma das piores do país estão, de fato, preparadas para lidar com estes jovens? Será que o nosso já depredado magistério, possui condições de lidar com as demandas que estas máquinas irão causar ao corpo docente?

Apesar de setores da sociedade clamarem pela liberalização da sexualidade, estes jovens ainda se perguntam quem são. Qual a sua identidade e por fim quem serão. Em suas mentes há mais perguntas do que respostas, Ser Emo, Hétero, Bi ou Homo? Lady Gaga é menino ou menina? São muitas as perguntas para uma única máquina responder. Ainda pressupões-se que um adolescente responsabilize-se por seu sexo, mas não por seus crimes, um legítimo paradoxo tupiniquim.

Antes da máquina aparecer na escola, precisamos fazer a escola aparecer a estes jovens. Antes de empurrar liberalidade sexual a eles precisamos dar condições de descobrirem quem são como indivíduos e quem são na coletividade. Antes de esperar que se comportem de uma forma precisamos refletir com eles sobre comportamento.

Confiaremos essa tarefa a uma máquina ou a nós mesmos?

3 comentários:

  1. "A intolerância do adolescente é a mesa farta da irresignação, quando abraça os conflitos partilhados pela incompreensão dos adultos."(Shallkitton)

    Muito bom seu texto! Nos resta agora escolher no que confiar. Isso determinará quem eles serão daqui pra frente. Ou não...

    Paz e bem.
    Aline.

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  2. E continuamos a tomar genéricos para nossas enxaquecas sociais...Cara, texto excelente! Concordo com a Aline: "Nos resta agora escolher no que confiar. Isso determinará quem eles serão daqui pra frente. Ou não."

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  3. Oi Aline, oi Davi!
    Corremos o sério risco de enfiar goela abaixo dessa meninada placebo técno-político quando eles ainda nem sabem quem são.
    Melhores dias para nossa juventude!

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